A minha irmã mais velha (a mais nova ainda nem tinha 2 anos) já tinha saído para a escola com as colegas, e eu fui sozinho, como era habitual. Mas logo encontrava colegas e amigos meus. A primeira aula foi a de Matemática - a do tal professor que nunca mudara o fato preto que trazia vestido desde o início do ano lectivo - e o professor estava muito nervoso. Andava de um lado para o outro na sala e dizia que o Terreiro do Paço em Lisboa estava cheio de tanques e militares. Para nós, isso pouco ou nenhum significado tinha - estávamos mais preocupados com as notas abaixo de zero que o professor costumava dar nos pontos - resta acrescentar que o professor de Matemática nunca mais apareceu desde esse dia...
Mas nesse dia nem a aula terminou. Alguém foi à sala e disse para sairmos todos da escola que não haveria mais aulas. Ficámos eufóricos, saímos a correr e encontrámos cá fora muitas mães, inclusive a minha - poucas mulheres naquela altura trabalhavam fora de casa -, que nos explicaram que tinham havido qualquer coisa, um golpe militar ou coisa assim...
Foi bom porque na programação da televisão na hora de almoço passaram a série «Viver no Campo» com Eva Gábor, que já não transmitiam há muito tempo. Na rádio entretanto transmitiam comunicados referindo que as rádios e as televisões tinham sido ocupadas por militares e que o governo de Marcelo Caetano estava retido num quartel em Lisboa. Aconselhavam as pessoas a ficarem em casa mas parece que muita gente não acatava essa ordem.
Não conseguíamos contactar com o meu pai - não se esqueçam que não havia telemóveis na altura - mas afinal ele veio um bocadinho mais cedo para casa. À noite na televisão apareceram uns militares graduados. O meu pai ainda foi ao meu avô e ouvi-os comentarem qualquer coisa como «era previsível» ou «já aconteceu». Pela conversa das pessoas reinava a alegria e parece que se tratava de uma coisa boa.
Nessa noite choveu e uma das minhas grandes preocupações foi para com os militares que estavam alojados perto do Cristo-Rei em Almada: pensava eu que a chuva iria demover os militares e que tudo iria acabar mal... só uns anos mais tarde é que descobri que «chuva civil não molha militares», hehehe...
(Este texto foi retirado e adaptado de um diário que eu escrevia na altura. As fotos foram feitas por mim hoje e a música é o Paulo de Carvalho em «E depois do Adeus»)
